Como
Combater o Medo
David
W. Smith
O medo e seus parentes – a ansiedade e a preocupação
-- afligem o coração humano desde a queda: “Adão respondeu: Ouvi a tua voz no
jardim, e, porque estava nu, tive medo, e me escondi” (Gn 3:10). De lá para cá,
este sentimento de grande inquietação ante a noção de um perigo real ou
imaginário que denominamos medo, pavor, temor ou terror, tem gerado incontáveis
prejuízos ao ser humano. Na chamada "síndrome do pânico”, ele
toma conta de uma maneira que foge ao controle racional, deixando a pessoa
"paralisada”, sem ação. Como encarar o medo e o que fazer com
ele?
Medo Providencial
É claro que alguns medos são sadios e necessários -- o
medo do carro que pode esmagá-lo, que leva a criança a olhar com cuidado antes
de atravessar a rua; o medo que motiva você a falar com seus filhos sobre o
perigo de brincar com fósforos ou conversar com estranhos. "O medo nos
mantém atrás da grade de segurança ao olharmos de cima para baixo de uma ponte
alta. Ele nos mantém fora das jaulas no zoológico (imagino como os
animais ficam gratos!). Nós nos afastamos, correndo, de casas em
chamas. Fugimos do caminho de um furacão. Nadamos somente
em águas conhecidas". Esse tipo de medo é bom, uma dádiva do
Senhor. A própria capacidade do homem para temer foi-nos dada pelo
Criador. O temor mais sublime é o temor ao Senhor, que "é o
único temor que remove todos os demais". Ele nos afasta do
pecado (Pv 8:13) e significa uma profunda intimidade e reverência para com
Deus.
Medo que escraviza
Aqui falo dos medos pecaminosos -- os que nos dominam
e paralisam, colocando-nos em uma espécie de prisão pessoal, impedindo que
façamos a vontade de Deus. São os medos que parecem ser "uma força
exterior que nos mantém cativos. . .uma espécie de tortura que eu agüento
sempre que sou agarrado pela gélida mão do medo…Porque têm esse tipo de medo,
pessoas mudam de emprego, mudam de uma cidade para outra, fecham-se em suas
casas, matam e fogem para instituições psiquiátricas. Por causa do
medo de gatos ou pontes, elevadores ou gente, pessoas têm desenvolvido estilos
de vida estranhos e infrutíferos".
Medo é o reconhecimento da nossa insuficiência e
impotência perante perigos e ameaças. Normalmente, ele "lança
mão de uma pequena possibilidade válida e distorce-a, aumenta-a, e perverte-a,
até esconder a realidade, e não conseguimos ver além do monstro grotesco que
nos cerca". Ele acaba sufocando-nos, controlando-nos por
completo.
Talvez o medo da morte seja o "pior dos
terrores" -- o pavor de perder para todo o sempre a saúde, o dinheiro, a inteligência
e a alegria. E se Deus nos libertou (como, de fato, fez) do
"pavor da morte" e daquele que "tem o poder da morte, a saber, o
diabo" (Hb. 2:14, 15), certamente Ele quer, e pode, nos livrar dos medos
"menores" que paralisam, controlam e nos mantém presos dentro de uma
prisão pessoal.
Medo que aguilhoa
O apóstolo Paulo afirma a libertação do filho de Deus
do medo da morte num grito de vitória: "Onde está, ó morte, a
tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?" (1 Co
15:55). Resposta? a morte não é mais vitoriosa. O
"ferrão" do escorpião da morte foi tirado. Se "o
aguilhão da morte é o pecado" (1 Co 15:16), o pecado já foi pago: "Agora,
pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus" (Rm
8:1). "Temos paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus
Cristo" (Rm 5:1).
Mas como, de maneira prática, combater os "medos
menores" que nos dominam com tanta freqüência? Quero sugerir
dois antídotos principais: (1) a percepção da presença de Deus, e (2) o
perfeito amor.
Percepção da presença de Deus
"Não temerei mal nenhum, porque tu estás
comigo" (Sl 23:4). Quanto consolo estas palavras têm trazido ao
povo de Deus ao longo dos séculos! Quantos servos de Deus têm
experimentado bonança em seus corações por reconhecer o Senhor nas tempestades
pessoais que os cercam. Disse Deus a Abrão: "Não
temas, Abrão, eu sou teu escudo" (Gn 15:1). A Jeremias Ele
disse: "Não temas diante deles; porque eu sou contigo para te
livrar, diz o Senhor" (Jr. 1:8). E quantas vezes o Senhor Jesus
acalmou os corações aflitos dos discípulos com palavras tais como: "tende
bom ânimo! Sou eu. Não temais!" (Mt 14:27). Nossa
própria experiência ecoa as palavras de Davi: "Busquei o Senhor
e ele me acolheu; livrou-me de todos os meus temores" (Sl 34:4). E
quantos cristãos têm voltado vez após vez ao conforto de Hebreus 13:5, 6: "porque
Ele tem dito: De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te
abandonarei. Assim, afirmemos confiantemente: O Senhor é
o meu auxílio, não temerei; que me poderá fazer o homem?"
Medo: visão distorcida
Na hora do medo, porém, nossa perspectiva fica
distorcida; vemo-nos abandonados por Deus. Parece que Ele Se
esqueceu de nós, perdeu nosso endereço, não Se lembra do nosso nome! Um
dos primeiros passos, portanto, para derrubar as paredes da prisão do medo é o
de ajustar nossa perspectiva: enxergar o
objeto do nosso medo sempre lembrando da presença do nosso Deus. Por
que? Porque a Bíblia afirma (e, pela fé, eu preciso aceitar o fato)
que Ele está presente na tempestade que nos aflige, e mais, sabe tudo sobre o
medo que nos perturba. Os dez espias falharam nesse ponto. Deus
não entrou no quadro mental do seu relatório a Moisés e ao povo de
Israel. Enxergaram sua própria incapacidade, não a capacidade de
Deus. Por isso, olharam a estatura do povo ("Maior e mais alto
de que nós é este povo" -- note em Deuteronômio 1:28, o exagero da
incredulidade contido na frase seguinte -- "as cidades são grandes e
fortificadas até aos céus").
Enxergaram também a sua própria pequenez ("éramos
aos nosso próprios olhos como gafanhotos, e assim também o éramos aos seus
olhos"). Mas não reconheceram a presença de seu grande
Deus. Na prática, pensaram como ateus. E o medo é uma
doença contagiosa: ouvindo o relatório da maioria, o povo chorou e
murmurou: "Para onde subiremos? Nossos irmãos
fizeram com que se derretesse o nosso coração" (Dt 1:28).
Josué e Calebe haviam examinado e avaliado exatamente
os mesmos fatos que os outros dez espias: o povo da terra, as altas
muralhas, sua pequena estatura perante os gigantes. Mas "o
relatório da minoria" enxergava as dificuldades como oportunidades para um
grande Deus exercer o Seu poder. Disseram os dois: "Se
o Senhor se agradar de nós, então nos fará entrar nessa terra, e no-la
dará: terra que mana leite e mel. Tão somente não sejais
rebeldes contra o Senhor, e não temais o povo dessa terra, porquanto como pão
os podemos devorar; retirou-se deles o seu amparo; o Senhor é conosco; não os
temais" (Nm 14:8, 9). Nada de "complexo de gafanhoto"
na perspectiva desses dois! O Senhor ocupava um lugar central na
perspectiva deles.
Olhando para o alto
Se um dos primeiros passos para combatermos o medo é
enxergar o objeto do nosso medo sempre na presença de nosso Deus, o segundo
passo é mantermos essa mesma perspectiva durante os momentos em que
experimentamos o medo. O problema de Pedro, ao sair do barco e andar
por sobre as águas em direção ao Senhor, é um problema muito comum. Ele
começou bem. Logo, porém, tirou os olhos do Senhor, focalizou as
condições (literalmente) tempestuosas ao seu redor, e esqueceu-se dos recursos
do Senhor implícitos em Seu convite ("Vem!"). Resultado: "teve
medo" (Mt 14:30). Lição? Correr com perseverança a
carreira que nos está proposta, olhando firmemente para Jesus (cf. Hb 12:1,
2). Ou, nas palavras do pastor Erwin Lutzer, "nosso foco nunca
deve estar nas circunstâncias. . . (e sim) nas promessas de Deus. Focalizar
(manter os olhos da fé fitos) as promessas de Deus significa obedecer a chamada
de Deus contida nelas. Escolhemos obedecer apesar dos medos que
possam surgir por causa das circunstâncias" (ênfase pessoal).
Fora! com o medo
Como focalizar as promessas e a presença
de Deus? Escrevendo sobre as mulheres e suas emoções, Miriam Neff relata o
seguinte: "Deus usou a memorização das Escrituras para derrotar
o medo em minha própria vida. Algumas pessoas talvez consigam lançar
mão de suas Bíblias na hora de sua necessidade. Na minha batalha com
o medo, porém, quando eu precisava das Escrituras, eu estava até com medo de
mexer-me, e minha Bíblia estava fora do meu alcance. (Por isso) no
conforto da luz do dia, eu escrevia versículos sobre medo em cartões 3 por 5, e
memorizava-os durante a rotina do dia. Andando de bicicleta com um
de meus filhinhos, eu tiraria um cartão de meu bolso e reveria o
versículo. "No amor não existe medo; antes, o perfeito amor
lança fora o medo" (1 Jo 4:18). Personalizei Isaías 43:1,
"Mas agora, assim diz o Senhor, que te criou ó (Miriam), e que te formou,
ó (Miriam): Não temas, porque eu te remi; chamei-te pelo teu nome,
tu és (minha)." Na escuridão, aquelas palavras tornaram-se
minha força e o prelúdio de uma boa noite de sono"
Até esse ponto, tenho presumido que a
percepção da presença e das promessas do Senhor será confortadora. Na
realidade, o impacto dessa percepção dependerá do nosso conceito de Deus. Helene
Ashker tem toda razão quando afirma que "nossos medos revelam nossa
perspectiva de Deus. Conceitos errados sobre Sua preocupação comigo
ou sobre Seu poder são revelados naquilo que acho difícil aceitar dEle pela
fé". Enquanto os discípulos achavam que a figura que se
aproximava deles, andando por sobre as águas, era um fantasma (Mt 14:26), a
presença não foi nada confortadora! Um conceito correto (por ser
bíblico) da Pessoa do Senhor torna-se vital na presença do medo.
Certa vez, uma moça falou comigo mais ou
menos com as seguintes palavras: Davi, às vezes parece-me que Deus é
um carrasco celestial que vive mandando tribulações, só para rir ironicamente
na minha cara quando me vê sofrendo. Foi o mesmo problema do povo de
Israel, ao ouvir o relatório dos dez espias sobre a terra prometida: julgaram
erradamente o próprio Senhor! "Tem o Senhor contra nós ódio,
por isso nos tirou da terra do Egito para nos entregar nas mãos dos amorreus e
destruir-nos" (Dt 1:27). Por isso, ler e decorar trechos das
Palavra de Deus que descrevem Sua majestade, Seu poder ímpar, Sua soberania e
Seu amor tem um valor inestimável na formação de um conceito bíblico da Pessoa
de nosso Deus. Isso porque o antídoto principal contra o medo é a
percepção íntima da presença pessoal do Deus da Bíblia.
O perfeito amor
Um segundo antídoto na batalha contra o medo é o amor,
pois "o perfeito amor lança fora o medo" (1 Jo 4:18).
Dr. Jay E. Adams diz: "O inimigo de
todo medo pecaminoso é o amor, amor para com Deus e para com o próximo (Mt
22:37 - 44). A forma de eliminar o medo, portanto, é revestir-se de
amor. Não existe poder expulsivo comparável em força ao amor de Deus
derramado em nossos corações pelo Espírito Santo (Rm 5:5)". O amor
bíblico não se refere a uma emoção melosa, mas se resume em obediência aos
mandamentos do Senhor (Jo 14:21). É a procura ativa e sacrificial do
bem-estar mais elevado de outrem. Conseqüentemente, por ser
altamente altruísta, o amor "muda a pessoa da introversão que produz o
medo, para o interesse pelo outro que traz alegria e satisfação". Uma
das maneiras de aperfeiçoar-se no amor é obedecer ao Senhor, a despeito do seu
medo.
Você "deve colocar como seu alvo principal o
agradar a Deus, e não livrar-se do medo. . . (isso porque) mais importante. .
.é o fato de que Deus quer que você procure agradá-lo em primeiro lugar, e só
pense no problema do medo em segundo lugar".
O medo pecaminoso nos tira da vontade de
Deus. Não provém do Senhor, "porque Deus não nos
tem dado espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação" (2 Tm
1:7). Percepção de presença do Senhor em nossas
"tempestades”, fé em Suas promessas e um crescente amor para com Ele que
determina obedecê-lo apesar de experimentar sentimentos de medo, são as
diretrizes bíblicas para vencermos o medo.
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