Os profetas Maiores

Os profetas maiores



Os Livros Históricos mostraram a função precípua dos profetas na direção e interpretação da história de Israel. Os últimos livros do AT preservam mensagens proféticas. Segundo a tradição, os livros proféticos são divididos em Profetas Maiores e Profetas Menores.

Os Profetas Maiores são Isaías, Jeremias, Lamentações, Ezequiel e Daniel. É claro que Isaías, Jeremias e Ezequiel devem ser classificados como profetas maiores. Os três foram figuras proeminentes na história de Israel e nos deixaram grandes coleções de mensagens proféticas e dados biográficos. Isaías ministrou em Judá mais ou menos entre 742 e 700 a.C.

Na Bíblia hebraica, Lamentações e Daniel fazem parte dos Escritos, não dos Profetas. A nossa Bíblia, porém, segue a tradução grega mais antiga e coloca esses livros entre os Profetas Maiores. Lamentações é tradicionalmente atribuído a Jeremias e, ao lamentar a trágica destruição da cidade, concentra-se no fato que ocupou a maior parte da atenção de Jeremias. O livro de Daniel, é claro, contém algumas profecias de acontecimentos futuros, ainda que apresentadas num estilo literário apocalíptico que se distingue nitidamente das formas proféticas tradicionais.


 

Isaías


Isaías profetizou mais ou menos entre 740  e 700 a.C., durante os reinados de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias de Judá.

O contexto histórico

Isaías viveu num momento importante para Israel e Judá. Alguns dos primeiros capítulos do livro refletem esse ambiente.
Isaías exortou os compatriotas a mudar, e o reinado de Ezequias testemunhou uma renovação das possi­bilidades. Ezequias também resistiu aos assírios. Isaías incentivou o rei a confiar no Senhor que, com um milagre, livrou a cidade das hostes assírias. Mas ele também previu que Judá acabaria exilado e discorreu sobre a situação daquela geração futura.

Tema

Deus é o “Santo de Israel” que controla de modo soberano o destino das nações, mas que também exige lealdade de seu povo.

Forma literária

O livro contém uma grande variedade de formas literárias, muitas vezes interligadas de maneira altamente artística e com retórica eficiente. Entre as formas mais comuns estão o discurso de julgamento, a exortação ao arrependimento, o anúncio da salvação, o oráculo de salvação, o discurso de disputa e o discurso de tribunal. O livro contém também mensagens proféticas.

Propósito e teologia

Como um mensageiro do Senhor que faz aliança com Israel e Judá, Isaías alertou que o povo de Deus estava para ser julgado por infringir a aliança com ele.
Isaías tem muito a dizer acerca de Sião (Jerusalém), a morada de Deus. Ele profetizou e testemunhou que a cidade seria miraculosamente libertada da Assíria.
O Servo do Senhor desempenha um papel importante na restauração de Israel. A revelação bíblica subseqüente identifica esse servo com Jesus Cristo.

O livro também dá destaque à soberania de Deus sobre as nações. Ele levantou a Assíria e a Babilônia como instrumentos para punir seu povo rebelde, mas depois as destruiu por causa de sua arrogância e crueldade.


ESTRUTURA DO TEXTO
O JULGAMENTO E A RESTAURAÇÃO DO POVO DE DEUS
1.1—12.6
Um ultimato e um alerta divinos
1.1-31
O julgamento purificador e a restauração
2.1—4.6
A destruição da vinha infrutífera do Senhor
5.1-30
A visão e o chamado de Isaías
6.1-13
O livramento final concedido pelo Senhor, por meio do Messias, a seu povo infiel
7.1—12.6

O JULGAMENTO UNIVERSAL E O ESTABELECIMENTO DO REINO DE DEUS
13.1—39.8
Discursos de julgamento contra várias nações
13.1—23.18
O julgamento mundial e a restauração de Jerusalém
24.1—27.13
Julgamento e esperança para Judá
28.1—35.10
Os fatos importantes durante o reinado de Ezequias
36.1—39.8

ESPERANÇA E RESTAURAÇÃO PARA O POVO DE DEUS EXILADO
40.1—66.24
Os exilados são libertados da Babilônia
40.1—48.22
A restauração de Jerusalém
49.1—55.13
A purificação definitiva do povo de Deus
56.1—66.24


O valor ético e teológico

Para Isaías, Deus era “O Santo de Israel” e “O Criador dos fins da terra”. Esse Deus exigia pureza moral e justiça de seu povo e de todas as nações.
Isaías desafia os cristãos a esperarem em Deus, que não cortou relações com a criação. O Israel do Antigo Testamento concretizou apenas parcialmente a salvação e a paz divina. Deus, que agiu para salvar os cristãos no passado por intermédio do Servo Sofredor Jesus, agirá novamente para conduzir a história ao fim por ele desejado: um novo céu e uma nova terra.

 


Jeremias


De acordo com o primeiro versículo do livro, Jeremias era um sacerdote proveniente de Anatote, cuja carreira profética iniciou-se no décimo terceiro ano de Josias (627-626 a.C.) e continuou até o exílio de Judá em 586. Os capítulos 39—44 indicam que Jeremias continuou ministrando após a queda de Jerusalém, sendo forçado a acom­panhar o grupo de exilados ao Egito.

O cenário histórico

Jeremias viveu durante os últimos dias do reino de Judá. Ao que parece, o avivamento sob o rei Josias e a queda do Império Assírio ofereceram um pouco de esperança a Judá. Ainda que às vezes reclamasse ao Senhor, Jeremias continuou alertando para o julga­mento iminente.

O julgamento chegou por intermédio dos babi­lônios. Em 605 a.C., os babilônios firmaram-se como a prin­cipal potência do Oriente Próximo, derrotando os egípcios em Carquêmis.

Em 588 a.C., Nabucodonosor invadiu Judá e começou um longo cerco de Jerusalém que culminou com a queda da cidade em agosto de 586. Jeremias, que se opôs ao assassinato de Gedalias e insistia que os babilônios não puniriam o povo, foi forçado a seguir para o Egito com os fugitivos.

Tema

Jeremias prometeu que Deus acabaria atingindo seu objetivo para Israel, mas só após um período de julgamento purifi­cador e de exílio. Deus não toleraria infidelidade em seu povo.

Forma literária

O livro contém uma variedade de formas literárias, incluindo mensagens proféticas, tanto em poesia como em prosa, e relatos biográficos do ministério de Jere­mias.

Uma comparação do hebraico com a versão grega antiga de Jeremias dá a entender que é possível que duas versões canônicas das profecias de Jeremias tenham circulado no período intertestamentário. A versão grega é de 12 a 13% mais curta que a hebraica, omitindo versículos isolados e também períodos mais longos. A versão grega também organiza os oráculos contra as nações (caps. 46—51 no texto hebraico) de outro modo e os coloca antes (como caps. 25—31).

Propósito e teologia

Jeremias acusou Judá de quebrar a aliança com o Senhor. Ele denunciou a infidelidade do povo em relação a Deus, o que se via com maior clareza em sua idolatria e nas alianças estrangeiras. Jeremias alertou o povo para que não ouvisse esses profetas mentirosos.
Embora a maior parte do livro seja dedicada aos temas do pecado e julgamento, Jeremias viu uma luz no fim do túnel. Um dia, Deus julgaria os inimigos de Judá, inclusive os poderosos babilônios e restauraria seu povo exilado, fazendo uma nova aliança.

ESTRUTURA DO TEXTO
O CHAMADO DE JEREMIAS
1.1-19
A CULPA E A QUEDA DE JUDÁ
2.1—24.10
Deus acusa seu povo infiel
2.1—3.5
As alternativas de Judá: arrependimento ou destruição
3.6—6.30
Condenadas a hipocrisia e a idolatria
7.1—10.25
Advertências contra a rebeldia
11.1—13.27
Deus responde às orações de Jeremias
14.1—15.21
Mais avisos e exortações
16.1—17.27
As lições do oleiro criam problemas para Jeremias
18.1—20.18
Mensagens contra reis e falsos profetas
21.1—24.10

MENSAGENS DE JULGAMENTO E RESTAURAÇÃO
25.1—51.64
O julgamento universal
25.1-38
O exílio e a restauração
26.1—35.19
Os últimos dias de Judá
36.1—45.5
O julgamento contra várias nações
46.1—51.64

UM EPÍLOGO HISTÓRICO
52.1-34


O valor teológico

Deus mostrou que a obediência, a justiça e a piedade o agra­davam e garantiam o futuro da nação. A tradição na teologia e no culto nada garantiam. Jeremias afirmou que o plano maior de Deus era abençoar seu povo.
As esperanças de Jeremias cumprem-se no novo relacio­namento com Deus que se tornou possível pela morte de Cristo


Lamentações


Ainda que não identifique seu autor, a tradição tem atribuído o livro de Lamentações a Jeremias. O livro foi escrito entre a destruição da cidade em 586 a.C. e a reconstrução do templo, setenta anos depois.

Tema
O autor lamentava a queda de Jerusalém. Embora reconhecesse que a calamidade fosse merecida, ele ansiava que Deus restaurasse seu favor.

Forma literária

O livro contém cinco poemas que correspondem à divisão de capítulos. Todos, exceto o último, são acrósticos, em que a forma reflete as sucessivas letras do alfabeto hebraico. Os lamentos seguem o padrão de Salmos.

Propósito e teologia

O autor reconhecia claramente a veracidade da­quilo que os profetas do pré-exílio haviam pregado — o pecado de Judá causara sua queda e a trágica des­truição de Jerusalém e do templo.

ESTRUTURA DO TEXTO
LAMENTO PELA AFLIÇÃO DE JERUSALÉM
1.1-22
O lamento do autor
1.1-11
O lamento da cidade personificada
1.12-22

LAMENTO PELO JULGAMENTO IRADO DO SENHOR
2.1-22
A ira do Senhor em ação
2.1-10
O lamento do autor e seu chamado à oração
2.11-19
A senhora Jerusalém lamenta a própria destruição
2.20-22

CONFIANÇA EM MEIO À DESGRAÇA
3.1-66
Choro pelo sofrimento
3.1-20
Confiança na fidelidade divina
3.21-42
Uma oração por vingança
3.43-66

LAMENTO PELA QUEDA DE JERUSALÉM
4.1-22
A glória de Jerusalém reduzida a cinzas
4.1-20
A retribuição sobre Edom
4.21-22

ORAÇÃO PELA RESTAURAÇÃO
5.1-22
Lamento pelas condições de opressão
5.1-18
Uma último pedido
5.19-22

O valor ético e teológico

Lamentações diz que não há nenhum lugar como a nossa pátria, especialmente quando esta deixa de existir. O livro mostra a face honesta da oração no meio da tragédia. A fé cresce no meio da crise, quando o povo de Deus leva seus problemas a ele.

 

 

Ezequiel


Ezequiel estava entre os exilados levados à Babilônia em 597 a.C. Ele recebeu seu chamado profético em 593 e profetizou entre 593 e 571.

O ambiente histórico

Quanto aos acontecimentos que levaram à queda de Jerusalém em 586 a.C., veja a introdução a “Je­remias”.

Tema

Conforme se retrata nas visões de Ezequiel, a glória do Senhor se apartara da cidade, deixando-a vulnerável à destruição. Entretanto, o Senhor acabaria restaurando seu povo na terra e restabeleceria uma adoração pura num novo templo.

Forma literária

Entre as principais formas literárias que aparecem no livro encontram-se visões proféticas, relatos de atos simbólicos, parábolas e mensagens de julgamento e salvação. Ezequiel empregou menos formas poéticas que Isaías e Jeremias.

Propósito e teologia

Ezequiel denunciou o povo de Deus por seus pecados e avisou que o julgamento era iminente. Como sacerdote, Ezequiel estava particularmente interessado no templo. Por meio de discursos, atos simbólicos e parábolas, Ezequiel profetizou a queda da cidade diante dos babilônios e o exílio de seu povo.
O julgamento de Deus não se limitaria a seu povo. Ele também puniria as nações vizinhas hostis. Apesar de seu povo estar disperso em exílio, Deus não o havia abandonado.

ESTRUTURA DO TEXTO
O JULGAMENTO DE JUDÁ PECADOR
1.1—24.27
O chamado de Ezequiel
1.1—3.27
Lições concretas de julgamento
4.1—5.17
Profecias de julgamento iminente
6.1—7.27
A glória de Deus afasta-se do templo corrompido
8.1—11.25
Lições concretas do exílio
12.1-28
A denúncia da falsa profecia
13.1-23
A denúncia contra os líderes idólatras
14.1-11
A destruição certa de Jerusalém
14.12-23
Ilustrações do pecado e do julgamento de Israel
15.1—17.24
A responsabilidade individual
18.1-32
Um lamento pelos príncipes de Israel
19.1-14
A rebeldia do passado e do presente de Israel
20.1-44
O fogo e a espada do Senhor
20.45—21.32
Jerusalém, uma cidade sangüinária
22.1-31
A alegoria das duas irmãs
23.1-49
A parábola da panela
24.1-14
A morte da esposa de Ezequiel
24.15-27

O JULGAMENTO CONTRA AS NAÇÕES VIZINHAS
25.1—32.32
O julgamento de Amom
25.1-7
O julgamento de Moabe
25.8-11
O julgamento de Edom
25.12-14
O julgamento da Filístia
25.15-17
O julgamento de Tiro
26.1—28.19
O julgamento de Sidom
28.20-26
O julgamento do Egito
29.1—32.32

A RESTAURAÇÃO DE ISRAEL
33.1—48.35
A renovação da missão de Ezequiel
33.1-20
A legitimação do ofício profético de Ezequiel
33.21-33
O pastor de Israel faz uma nova aliança com seu povo
34.1-31
A vingança contra Edom
35.1-15
A prosperidade retorna a Israel
36.1-15
Deus purifica seu povo
36.16-38
Israel revive
37.1-14
Israel e Judá são reunificados
37.15-28
A destruição definitiva das nações
38.1—39.29
A restauração da pureza de culto
40.1—48.35


O valor ético e teológico

Sua mensagem aos exilados na Babilônia fala para pessoas feridas e abatidas que necessitam da segunda chance dada por Deus.
A estranha visão introdutória de Ezequiel retrata Deus como alguém incomparável, perfeito em san­tidade e poder.
Mesmo no exílio, longe da pátria, Deus era acessível para o profeta. A fidelidade de Deus era a esperança de Ezequiel.
Os cristãos podem aprender a ser responsáveis com Ezequiel. Como ele, os fiéis devem identificar-se com a dor daqueles ao seu redor. Como Eze­quiel, os cristãos são “atalaias”, responsáveis por alertar o próximo sobre as conseqüências do pecado.



 

Daniel


O livro de Daniel tem sido tradicionalmente atribuído a Daniel com base em declarações explícitas feitas em suas páginas e em testemunhos de Cristo. Daniel viveu na Babilônia durante o século vi a.C. e serviu a governantes tanto babilônios como persas.

É possível fazer apenas algumas observações a respeito do valor histórico do livro:
1. O Deus soberano do universo às vezes intervém na história de maneira sobrenatural, sendo exemplo máximo disso a ressurreição de Jesus Cristo.
2. A descrição que o livro faz de Dario, o medo, embora problemática em alguns aspectos, não prova necessariamente que não seja histórico.
3. Os estudiosos têm debatido se o aramaico em­pregado no livro reflete uma data antiga ou uma data posterior.
4. O capítulo 11 é um divisor de águas no debate sobre a natureza das profecias do livro.

O ambiente histórico

Daniel e seus amigos foram levados para o exílio em 605 a.C.

Tema

Daniel retrata Deus como o Rei soberano do uni­verso, aquele que controla os destinos tanto de impérios pagãos como de seu povo exilado.

Forma literária

Aqueles que consideram fictícias as histórias classificam-nas como lendas da corte. Os que aceitam seu valor histórico consideram-nas relatos biográficos de Daniel e de seus amigos.

As visões de Daniel podem ser classificadas como literatura apocalíptica.
A estrutura do livro pode ser vista de vários modos:
1)    Capítulos 1—6: narrativos;
2)    Capítulos 7—12: visões de acon­tecimentos futuros;
3)    Capítulos 1.1—2.4a; 8-12: escritos em hebraico;
4)    Capítulos 2.4b—7.28: escritos em aramaico. A explicação para a natureza bilíngüe do livro é confusa.
5)    Capítulos 2.4b—7.28: unidade simetricamente ordenada que apresenta uma estrutura espelhada.


Propósito e teologia

O Deus de Daniel é o Rei soberano do mundo, que levanta e derruba governantes e determina com grande antecedência o futuro das nações. A ele Deus revelou a história futura, demons­trou o poder de livrar os seus e deu uma lição viva sobre os perigos do orgulho. Nabucodonosor foi forçado a reconhecer a soberania do Deus de Daniel.

ESTRUTURA DO TEXTO
DANIEL E SEUS AMIGOS NA BABILÔNIA
1.1—6.28
Daniel e seus amigos permanecem fiéis
1.1-21
Daniel interpreta um sonho
2.1-49
Os amigos de Daniel enfrentam a morte
3.1-30
Nabucodonosor sonha com uma grande árvore
4.1-37
A queda da Babilônia
5.1-31
Daniel é livrado da cova dos leões
6.1-28
VISÕES E REVELAÇÕES DE ACONTECIMENTOS FUTUROS
7.1—12.13
A visão de quatro animais saindo do mar
7.1-28
A visão de um carneiro e um bode
8.1-27
A visão das setenta semanas
9.1-27
Um anjo revela acontecimentos futuros
10.1—12.13

O valor ético e teológico


Daniel destaca a soberania de Deus sobre a história do mundo. A história desenvolve-se como parte dos planos de Deus e caminha em direção a alvos anteriormente de­terminados por Deus. Os déspotas terrenos utilizam seu poder cruel só por um breve tempo. Deus está no controle de tudo e estabeleceu um fim para o tempo de sofrimento de seu povo. Entre os propósitos de Deus para a história humana estão o livramento de seu povo oprimido, a ressurreição, o julgamento e o estabeleci­mento de seu reino eterno. Daniel, portanto, conclama o povo de Deus de todos os tempos a perseverar e a manter a esperança. À semelhança de Daniel e seus amigos, os cristãos de hoje são tentados a fazer concessões em seus valores e cultuar aquilo que não é Deus. Daniel convoca os cristãos a viverem a sua fé a qualquer custo neste mundo hostil.

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