A História de Abraão
A história de Abraão
começa em Gênesis 11.26, com seu nascimento, e termina em Gênesis 25.9, quando
é sepultado em Macpela pelos dois filhos, Isaque e Ismael. De todos os
patriarcas, é o que tem o registro mais longo e isso reflete a importância do
“pai de todos os que crêem” (Rm 4.11-17).
A fé que amadureceu lentamente
Existe um padrão distinto na maneira como a história de Abraão é contada:
(A1) Gênesis 11.27-32: Os primeiros eventos.
Ancestrais e nascimento. A família de Harã. Abrão e Sarai.
(B1) Gênesis 12.1 a 20.17: O conflito da fé.
(b1) Gênesis 12.1-20. Aventura e falhas.
Chegada à Terra Prometida.
A promessa anunciada. A presença de Ló. A terra identificada. O abandono da
terra em tempos de aflição. O Senhor promete, mas será que cumpre sua Palavra?
A questão da fé e da perseverança.
(b2) Gênesis 13.1-18:
Renovação do compromisso e novas falhas.
Retorno à terra. Ló. Contendas. Parte da terra cedida a Ló. A Palavra de Deus ajustada às circunstâncias humanas. Renovação da promessa. A questão da fé e da Palavra imutável de Deus.
Retorno à terra. Ló. Contendas. Parte da terra cedida a Ló. A Palavra de Deus ajustada às circunstâncias humanas. Renovação da promessa. A questão da fé e da Palavra imutável de Deus.
(b3) Gênesis
A defesa da terra exige ação resoluta. A promessa garantida por meio da aliança. A falha com relação a Hagar. A questão da fé e da paciência.
(b4) Gênesis
Promessas detalhadas. A fidelidade do Senhor à sua aliança e a falha de Abraão, motivada pelo medo. A questão da fé e da confiança.
(B2) Gênesis
O nascimento de Isaque. Um novo título para o Senhor. A oferta de Isaque. A promessa mais uma vez renovada.
(A2) Gênesis 22.20—25.10: Os últimos eventos.
A família de Harã. A morte de Sara. Uma noiva de Harã para Isaque. A morte de Abraão.
Note como toda a história pode ser classificada (A1, A2) pelas referências a Harã e pelo contraste entre o nascimento e a morte. Esta é uma narrativa da transformação gradual mediante a graça divina, por meio da quais pessoas com antigos nomes, Abrão e Sarai (A1), transformaram-se em novas criaturas, Abraão e Sara (A2). Essa, contudo, não foi uma transformação repentina.
A grande decisão da fé (Gn
15.4-6) foi instantânea e irreversível; a vida mediante a fé, entretanto, foi
uma batalha prolongada (b1 - b4), com muitos fracassos e deslizes. A fé foi
efetiva desde o início, mas amadureceu lentamente. Esse ponto é enfatizado na
maneira como a história é narrada e também nas citações do Novo Testamento.
Hebreus 6.15 mostra que a promessa não foi “alcançada” sem paciência e Tiago
2.22 fala que a fé de Abraão foi “aperfeiçoada”. A história do pai da fé, o
crente Abraão, definitivamente nega a idéia da santificação instantânea.
A narrativa de b1 a b4 é cheia de falhas. Primeiro, houve o medo de que, afinal, o Senhor, que o chamara (Gn 12.1) e lhe prometera (vv. 2-4, 7), não fosse capaz de prover (note o termo “porque” no v. 10). Segundo, a falha revelada mediante o desejo compreensível de encontrar uma solução rápida e prática para um problema familiar (Gn 13.8).
Abraão mostrou que estava preparado para
adaptar a Palavra de Deus (a promessa de possuir toda a terra de Canaã), a fim
de pacificar Ló. A próxima falha envolveu Hagar, procedente da espera
impaciente pelo cumprimento da promessa (Gn 15.2-4; cf. também 16.1). E, em
quarto lugar, Abraão falhou, quando manteve hábitos irracionais e temeu por sua
segurança pessoal (Gn 20.1,11-13). Essa última falha foi mais grave do que
qualquer outra que Abraão experimentou.
O Senhor não só se
comprometeu com ele, mediante uma aliança (Gn 17.1-8), como mostrou sua
fidelidade em manter suas promessas: Por que Ele “lembrou-se de Abraão, e tirou
a Ló do meio da destruição” (Gn 19.29), embora este não estivesse incluído na
promessa de Gênesis 17.7. A despeito disso, no momento da pressão, quando sua
própria segurança encontrava-se ameaçada (Gn 20.11), Abraão não estava muito
seguro de que o Senhor provaria ser digno de confiança.
A estrada da maturidade da fé (Gn 22.1-19; Tg 2.21,22) sempre foi baseada na prática de dois passos para frente e um para trás; é um teste constante, no qual as pressões da vida — alimento (Gn 12.10), família (Gn 13.7), anseios (Gn 15.3; 16.1) e temores (Gn 20.11) — cooperam, em forma de “provações” (Tg 1.2), as quais, quando enfrentadas com fé e perseverança, nos tornam “maduros e completos” (Tg 1.4).
Essa história, contudo, num misto de progressos e fracassos, tem uma forma distinta e devemos isto à arte literária da Bíblia; observamos com brevidade como b1 e b4 compartilham referências do engano praticado que envolveu Sara (Gn 12.1-13; 20.1). Durante todo o tempo em que peregrinou pela terra, Abraão não estava isento das tentações — nem mesmo de recair na mesma tentação. Ainda assim, embora ele demonstrasse falta de fé, o Senhor continuava fiel — “porque não pode negar-se a si mesmo” (2° Tm 2.13) — e trabalhava na solução do problema à sua própria maneira providencial, não somente guardando a semente prometida, mas também usando o erro de Abrão para enriquecê-lo materialmente (Gn 12.16) e confirmá-lo como profeta e intercessor (Gn 20.7,17).
As seções intermediárias
(b2 e b3) falam do tema da terra: pressionado pelos conflitos ocasionados pela
presença de Ló, Abraão estava disposto a abrir mão do direito sobre parte do
que Deus lhe prometera (Gn 13.8,9) — como se ele realmente tivesse competência
para dar a Terra Prometida de presente a alguém! Em contraste, quando uma
coalizão de reis estabeleceu o que viam como seu direito pela mesma área de
terra (Gn 14.1-11), Abrão primeiro agiu resolutamente para invalidar a posse
deles (vv 13-16); então, com a mesma atitude resoluta, não contestou quando o
rei de Sodoma calmamente declarou possessão sobre o que acabara de perder na
batalha, nem aceitou qualquer parte do espólio.
Da mesma maneira que a
Terra Prometida não pertencia a Abrão, para dá-la a outrem, tampouco era sua
para conquistá-la. As promessas de Deus não podem ser barganhadas (Gn 13.8,9),
nem herdadas de outra maneira, a não ser no tempo de Deus e pela perseverança
da fé. Muito pungente, a história da morte de Sara (Gn 23) e da compra do campo
de Macpela como local de sepultura fala sobre o mesmo tópico. Era costume de a
família patriarcal levar seus mortos de volta para casa, a fim de sepultá-los
(Gn 50.4,5, 25); mas Sara não foi conduzida para Ur ou Harã (Gn 11.31,32). Foi
depositada num sepulcro em Canaã. A caverna, com seu precioso cadáver, era uma
declaração muda e poderosa: “Esta terra é nosso lar; esta terra é nossa,
conforme o Senhor prometeu”.
Um plano para o mundo
Antes de encerrarmos o assunto sobre Abraão, em Gênesis, notemos o ponto onde ele aparece pela primeira vez. Em contraste com Gênesis 12 a 50, onde este único homem e sua família ocupam toda a cena, Gênesis 1 a 11 é universal, pois trata (logo depois da narrativa da criação, Gn 1 e 2) de eventos gerais, como a Queda (Gn 3 a 5), o Dilúvio (Gn 6 a 9) e a Dispersão em Babel (Gn 10,11).
Nas narrativas da Queda e
do Dilúvio, o elemento da longanimidade e da graça divina é bem explícito. A
lei sob a qual a humanidade ocupou o Jardim do Éden incluía a advertência de
que o pecado traria a morte (Gn 2.17); mas quando Adão e Eva transgrediram, na
verdade o Senhor falou-lhes sobre a continuação da vida e a derrota final da
serpente (Gn 3.15,16).
Quando chegou o Dilúvio, a
graça (Gn 6.8) já havia separado um homem e sua família para a salvação (Gn
6.17). Em Babel, entretanto, podemos muito bem perguntar onde estão os sinais
da graça e da esperança. Pelo contrário, parece que o fato que mais temiam (Gn
11.4), veio sobre eles (v. 9) — com a calamidade adicional do colapso universal
da comunicação — que Gênesis trata como se fosse de pouca relevância, ao
registrar imediatamente outra genealogia, como se os seres humanos simplesmente
estivessem espalhados e abandonados à própria sorte.
Um olhar mais atento para
a genealogia, contudo, revela alguns pontos muito importantes.
Primeiro, ela volta até
antes do incidente de Babel, ao novo começo com Noé, para traçar a história
emergente da família de Sem.
Segundo, ela passa por
cima de oito gerações (de Sem até Naor, Gn 11.10-24), das quais nada fala, até
que encontra um homem praticamente desconhecido, chamado Terá, o qual tinha um
filho chamado Abrão (Gn 11.26,27-30) — a quem o Senhor diria, “em ti serão
benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.3); isso significa, literalmente,
“abençoarão a si mesmas”, ou, numa tradução mais livre: “entrarão na bênção de
que precisam”. Desta maneira, a história de Babel também tem sua nota de graça
e esperança.
A humanidade
deteriorou-se; sua situação é triste e irremediável, mas o Senhor estabeleceu seus
planos (em Noé e Sem), antes que o pecado de Babel com todas as suas
implicações fossem cometidos. Por causa disso, o livro de Gênesis, com seu foco
quase exclusivo em Abrão/Abraão e sua família, não voltou suas costas para o
mundo; ele seria restaurado da maldição (Gn 3.14-20) e das divisões (Gn 11.9)
causadas pelo pecado; por meio dele e sua família nasceria o descendente da
mulher, que esmagaria a cabeça da serpente (Gn 22.18).
O Pacto Abraâmico
De Noé até Abraão
A aliança de Deus na Bíblia é sua promessa concedida gratuitamente. No caso de Noé, onde a palavra “aliança” ocorre pela primeira vez. A promessa era de salvação do juízo que o Senhor traria sobre todo o mundo (Gn 6.17); ali, as quatro características das alianças divinas apareceram juntas: promessa (Gn 6.17), sacrifício (Gn 6.20), lei (Gn 9.1-8) e sinal (Gn 9.8-17). Quando Deus fez sua aliança com Abrão (Gn 15 e 17), ficou um pouco mais claro como esses elementos estão inter-relacionados, embora a idéia total da aliança tivesse de esperar até Moisés, o Êxodo e o monte Sinai.
A segurança da aliança
No caso de Abrão, o Senhor apareceu-lhe no momento em que ele precisava uma reafirmação e esperança, e disse-lhe que não temesse, pois garantia a proteção e um grande galardão (Gn 15.1). Não está claro por que Abrão precisava de tal palavra de Deus, mas Gênesis 15.1 oferece uma pista, ao localizar o fato, “depois destas coisas...” — quer dizer, após os eventos do cap. 14: a derrota dos reis (vv. 13-16), a restauração do rei de Sodoma (vv. 17, 21) e a recusa de participação em qualquer divisão de espólio (vv. 22-24).
Ao ler nas entrelinhas,
talvez Abrão temesse um contra-ataque desferido pelos quatro reis. Teria ele
imaginado que não seria possível aquela vitória representar a maneira como Deus
planejava dar-lhe a terra e, por isso, perdia a oportunidade? Grandes vitórias
freqüentemente são seguidas pela depressão e ansiedade! Seja qual for a razão,
Abrão precisava de uma reafirmação presente e futura e Deus a deu — somente,
contudo, para provocar mais uma reclamação, de que a vida não valia a pena ser
vivida sem um filho e um herdeiro (Gn 15.2).
Como o Senhor é paciente!
Como se sua promessa anterior não fosse suficiente, Ele voltou à tarefa de
consolar seu servo com mais duas promessas específicas: a de um filho e uma
família (Gn 15.4,5) e a da terra de Canaã para seus descendentes habitarem nela
(v. 6). Já que Abrão ainda não se sentia totalmente seguro (v. 8), o Senhor
então iniciou os procedimentos da aliança (vv. 9-18).
O sacrifício da aliança
Até onde 1]o651sabemos o sacrifício detalhado em Gênesis 15.9-17 não está bem explicado — embora fique claro que Abrão sabia e entendia o que fazia naquele momento. Temos alguma luz por meio de Jeremias 34.18, onde é citado que as pessoas que desejavam firmar um juramento solene andavam entre as partes cortadas do animal sacrificado, para representar que “se eu não mantiver meu juramento, isso será feito comigo”.
No caso de Abrão, quando
preparou o sacrifício (Gn 15.10), foi tirado de cena por um coma espiritual (v.
12), pois não era ele quem fazia o juramento, por ser somente um espectador do
que o Senhor faria; ao reiterar a promessa dos descendentes e da terra (vv
13-16), Deus tomou sobre si toda a responsabilidade do compromisso: Ele
assumiria todo o impacto da aliança quebrada.
A visão do Senhor como “um
fogo fumegante e uma tocha de fogo” não foi explicada a Abrão, mas depois
entendemos que era uma demonstração prévia do Deus do Sinai, em fogo e fumaça (Ex
3.2-5), a coluna de nuvem e fogo (Ex 13.21,22), o Deus santo (Ex 3.2-5), o qual
pela graça encobre sua santidade, para poder se manifestar no meio do povo.
Tudo isso, porém, está sem explicação. Gênesis 15.18, entretanto, deixa bem
claro que o pacto abraâmico foi inaugurado por meio de um sacrifício.
Lei, promessa e sinal
Quinze anos depois da chegada de Abrão a Canaã (Gn 12.4; 17.1) e treze depois da falha dele, ao envolver-se com Hagar (Gn 16.16), o Senhor apareceu-lhe, para completar a aliança. Em Gênesis 15.18, é usada a palavra técnica para “inaugurar” uma aliança; em Gênesis 6.18, o verbo “estabelecer” significa “implementar; colocar em ação”; aqui, em Gênesis 17.2, o verbo “firmar” é, literalmente, “colocar, estabelecer”, a fim de significar que a partir daquele momento a aliança seria um relacionamento imutável entre o Senhor e Abrão.
A passagem amplia a ação
da aliança de Gênesis 15, ao conceder maiores detalhes sobre a promessa (Gn
17.4-8) e acrescentar os dois componentes remanescentes: a lei (Gn 17.2) e o
sinal (Gn 17.9-14). Típica do período patriarcal, a lei (Gn 17.1) não é
específica, mas, mesmo assim, requer a busca da santidade dentro da comunhão
divina. A promessa, contudo, é detalhada e cobre quatro categorias: pessoal (Gn
17.4,5), doméstica (v. 6), espiritual (v. 7) e territorial (v. 8) e é selada
com o sinal da aliança da circuncisão (vv. 10-14). Desde que esta prática é
chamada de “o sinal da aliança”, deve ser interpretada da mesma maneira que as
palavras idênticas de Gênesis 9.17; isso quer dizer que a circuncisão não é um sinal
do que Abraão prometia a Deus, mas sim do que o Senhor garantia a Abraão. Por
esta razão, Romanos 4.11 refere-se à circuncisão como “o selo da justiça da
fé”: não “o selo da fé”, como se ratificasse a resposta de Abraão, mas “o selo
da justiça”, a fim de confirmar o que Deus fez por Abraão e as promessas que
estabelecera.
Dali em diante, enquanto o
patriarca aguardava a chegada do filho prometido, fortalecer-se-ia nos dias de
impaciência ou dúvida, ao lembrar-se de que trazia no próprio corpo a confirmação
das promessas divinas — da mesma maneira que, para Noé, o arco-íris nas nuvens
dissipava qualquer temor de que outra tempestade interminável acontecesse. Em
ambos os casos, o sinal proclamava as promessas de Deus, exatamente como os
sinais da aliança do Batismo e da Ceia do Senhor fazem hoje.
A fé de Abraão
Um único e firme propósito
Quando olhamos a história de Abraão, em Gênesis, nossa ênfase foi colocada no conflito da fé e nos fracassos dele. Agora é o momento de olharmos para sua confiança, sua disposição firme e perseverante em arriscar tudo, baseado meramente na Palavra de Deus. Pois isso é fé o que vemos em Abraão — e em toda a Bíblia. Não é um salto no escuro, que é credulidade e não fé. Na verdade é um salto na luz, pois tem como base de apoio a palavra que Deus falou; fé são convicção e ação, que nascem a partir da verdade.
Pela fé, conforme diz
Hebreus 11.8, “Abraão, sendo chamado... saiu, sem saber para onde ia”.
Realmente, somente depois que entrou em Canaã, o Senhor finalmente disse: “darei
esta terra” (Gn 12.7). Nada tirou Abraão do seu caminho — nada, nem mesmo seus
próprios fracassos! Por exemplo, depois de sua falha no Egito (Gn 12.10-20),
não se limitou a voltar para a terra de Canaã: retornou especificamente para o
lugar onde começara (Gn 13.3), de regresso até onde tinha certeza que estivera
na estrada da fé. Todo o ciclo de sua vida está dentro de três parâmetros:
obedecer à Palavra de Deus, retornar à Palavra de Deus e esperar a Palavra de
Deus. É isso que define fé. Isto é vida de fé.
Gênesis 12 destaca a grande aventura da fé (vv. 1,4). Gênesis 14 não menciona a fé em conexão com a guerra contra os reis, mas o contexto nos permite ver a ousadia da fé. Abraão tentara resolver a crise, pois aquela situação envolvia sua família (Gn 13.7), “ajustando” a palavra de Deus ao problema (Gn 14.8,9); mas o Senhor nada teve que ver com aquilo. Depois que o erro foi cometido (Gn 14.14), Deus reafirmou a palavra da promessa: “Toda esta terra... hei de dar a ti... pois eu a darei a ti” (Gn 13.15-17) e essa promessa incluía a parte que Abraão cedera a Ló e retomara dos reis (Gn 14.8-12). A fé torna-se ousada quando age alinhada com as promessas do Senhor. Em Gênesis 18.23-33, vemos o mesmo princípio de outra maneira: a ousadia da oração da fé, quando repousa no conhecimento do caráter de Deus (v. 25).
O filho prometido
Gênesis destaca dois “momentos” específicos na vida da fé de Abraão, com uma ênfase especial.
Primeiro, a promessa do
nascimento de um filho foi aceita pela fé e essa foi imputada como justiça (Gn
15.6). Esse incidente proporcionou a Paulo uma de suas muitas “passagens de
ouro” — Romanos 4.18-22. Será que alguém conseguiria expressar de forma tão
perfeita a situação inteiramente absurda de um casal que era, humanamente
falando, “ultrapassado”, que agira não baseado no que sonhava, mas no pleno
reconhecimento da própria incapacidade, mas que, apesar disso, “não se deixou
levar pela incredulidade”?
Ambos os textos, Romanos
4.21 e Hebreus 11.11 falam da mesma coisa: “estando certíssimo de que o que ele
tinha prometido também era poderoso para cumprir”...; “teve por fiel aquele que
lhe havia feito a promessa”. A verdadeira fé deliberadamente encara a
incapacidade humana, mas com total simplicidade — escolhe descansar na promessa
de Deus.
O outro momento significativo da fé é destacado em Gênesis 22.1-19: o sacrifício de Isaque. Foi incrível Abraão olhar para o seu próprio corpo amortecido e ainda crer na promessa de que teria um filho; seria ainda inacreditável que ele pegasse seu filho, o único objeto de todas as promessas de Deus (Hb 11.17,18) e, humanamente falando, colocasse tudo a perder.
Ele, porém, fez isso. O
principal ponto da questão está em Gênesis 22.5: literalmente, “Eu e o menino —
nós subiremos até lá; nós vamos adorar e nós voltaremos para cá”. Abraão sabia
exatamente que aquela “adoração” envolveria a morte e a oferta do filho e,
mesmo assim, ousou dizer: “nós... nós... nós...” O comentário inspirado em
Hebreus 11.19 diz tudo, e Tiago 2.22 fala sobre o incidente como “a fé
aperfeiçoada”, como, de fato, ela foi mesmo.
Aquela “fé simples” de
Gênesis 15.6, a confiança baseada simplesmente na Palavra de Deus, deve provar
sua realidade nos desafios e respostas da vida diária. Esses testes não são
casuais, mas elementos de um programa educativo divino (Hb 12.1-10), para nos
tornar “participantes da sua santidade”. Abrão começou a andar com Deus (Gn
15.6) e Abraão percorreu o caminho completo (Gn 22.15-18).
A família de crentes
Abraão é apresentado a nós no Novo Testamento como um homem de fé, como nosso pai e nosso exemplo. As passagens mais importantes são Romanos 4, onde ele é chamado de pai de todos os que crêem (Rm 4.11,12,16) e Gálatas 3.1-14, onde os crentes são chamados de filhos de Abraão (Gl 3.7). Esta epístola insiste em afirmar que, nesse aspecto, o Novo Testamento nada tem a acrescentar ao Antigo: todas as bênçãos de Deus em Cristo Jesus, resumidas e cumpridas plenamente no dom do Espírito Santo, são nossas simplesmente e somente na base da mesma fé que Abraão teve.
Romanos acrescenta que
essa fé é a marca distintiva do povo de Deus, seu Israel. Os descendentes
biológicos de Abraão não recebem mais benefícios, nem para Paulo, em Romanos
2.28,29; 9.7,10-13, nem para João Batista, em Mateus 3.9. Do ponto de vista divino,
“o Israel de Deus” é sua nova criação (Gl 6.15,16); do ponto de vista das
experiências e respostas humanas, ela “é pela fé, para que seja segundo a
graça, a fim de que a promessa seja firme a toda a descendência, não somente à
que é da lei, mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é pai de todos
nós” (Rm 4.16).
O Deus de Abraão
Quem é o Senhor? Na história de Abraão, o nome divino Yahweh (traduzido na Versão Contemporânea como “Senhor”) ocorre 73 vezes, e referências como Gênesis 15.8 mostram Abrão pessoalmente empregando este vocábulo. Ainda também é verdade, conforme vemos em Êxodo 6.2,3, que, embora o nome fosse conhecido, não tinha ainda nenhum significado específico relacionado a ele.
No livro de Gênesis, Deus
não se revelou para explicar o significado de “Yahweh”, mas para usar outros
estilos e títulos. Gênesis 17.1 coloca a questão de forma concisa:
“apareceu-lhe Yahweh e lhe disse: Eu sou El Shadday...”. El Shadday (Deus
Todo-poderoso) é o principal dos quatro títulos similares de Deus, conhecidos
por Abraão: Melquisedeque apresentou-se a Abraão como “sacerdote do Deus
Altíssimo” (El Elyom). Se traduzirmos El Elyom como “criador” (Contemporânea)
ou como “possuidor” (ARC) “do céu e da terra”, Ele é o Senhor supremo e
universal, e Abrão não hesitou em identificá-lo como seu próprio Deus, Yahweh
(Gn 14.22).
Novamente, quando o Senhor
vai ao encontro de Hagar (Gn 16.13), ela o reconheceu como “o Deus que vê” (El
Roi), um Senhor que tinha um conhecimento direto (e cheio de graça) do que acontecia
sobre a Terra. Em Gênesis 21.22, Abimeleque, de Gerar, negociou um tratado
perpétuo de amizade com Abraão e, em comemoração a esse evento, nosso patriarca
plantou um bosque e invocou o nome do “Senhor, o Deus eterno” (Yahweh El Olam)
— provavelmente ele chegou a esse título por meio da conclusão de que somente
um Deus eterno poderia ser invocado para superintender um tratado perpétuo.
El Shadday
De todos esses títulos, apenas El Shadday reaparece no restante de Gênesis (28.3; 35.11; 43.14; 48.3; 49.25). O que ele queria dizer para o escritor desse livro? O significado de “Shadday” como vocábulo é muito incerto e há muita discussão em torno dele, mas o contexto no qual este termo é usado sugere como deve ser entendido.
Por exemplo, em Gênesis
17.1, pelo menos 14 anos já se tinham passado desde que Abraão recebera a
promessa original de um filho (Gn 16.16). A passagem de todos esses anos
(Abraão tinha agora quase 100 anos de idade e Sara já estava na menopausa,
incapaz de gerar filhos, Gn 18.11) teve o efeito de reforçar as fraquezas
humanas. Foi nesse contexto que Deus se revelou como El Shadday, e essa mesma
característica — a habilidade de transformar situações criadas pelas fraquezas
humanas — aparece também em outras passagens.
Assim, quando Jacó enviou
seus filhos de volta ao Egito, para enfrentarem o imprevisível e todo-poderoso
José, ele os encomendou a El Shadday (Gn 43.14). Sem dúvida, foi nesse mesmo
espírito que ele diz ter sido El Shadday quem se encontrou com ele em Betel (Gn
48.3) — pois o que poderia ser mais desesperador do que a situação de Jacó,
expulso de casa, perambulante, sem um lar? El Shadday é o Deus que opera nas
fraquezas humanas e as transforma — da maneira como agiu, ao transformar o
Abrão sem filhos em Abraão, o pai de uma multidão de nações. Tal Deus é digno
de nossa confiança, em todas as circunstâncias.
Porque conhecia seu Deus — El Shadday, o Deus de poder ilimitado para transformar — Abraão tornou-se um preeminente homem de fé.

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