A VERDADEIRA
SAGA BATISTA
Pastor Chris
Traffanstedt, da Igreja Batista Reformada de Providence, EUA.
A maioria dos cristãos de
hoje não tem a menor idéia sobre a história da Igreja e quão importante é
compreendê-la. Mesmo quando voltamo-nos especificamente para história de uma
denominação, como dos batistas, as pessoas ainda são ignorantes. Esta é uma
breve história da fundação do grupo chamado batista. A intenção é desafiá-lo a
explorar ainda mais a história dos batistas assim como a história da Igreja por
conta própria, para além do material aqui disponível.
Comecemos com a premissa
básica sobre a história dos batistas: a moderna denominação batista começou na
Inglaterra e na Holanda no início do século dezessete. Esta origem tem sido
muito debatida através da história, mas nosso alvo aqui é mostrar que nossa
premissa é mais próxima dos fatos históricos do que outras posições
sustentadas. Desde o início dos anos 1.600, vemos dois grupos principais
emergindo na Inglaterra que podemos classificar como batistas: Batistas
Particulares e Gerais. Antes de explorarmos estes dois grupos detalhadamente,
porém, focalizemos primeiro a história que deu início a estes dois grupos.
A História que
Culminou com a Fundação dos Batistas
A Reforma
O ano era 1.517. Um monge
desconhecido de nome Martinho Lutero fixou uma lista de problemas (95 para
sermos exatos) sobre um dos novos programas da Igreja. Nesta lista difícil de
pregar ele atacou a visão da Igreja sobre as indulgências, que eram o pagamento
à Igreja para obter perdão de pecados. Lutero via estes pagamentos como uma
abominação à obra expiatória de Cristo. "As Noventa e Cinco Teses"
eram uma convocação para o debate, apesar de o debate nunca ter acontecido.
Esta chamada, contudo, realmente sacudiu o povo da Alemanha. O desafio de
Lutero continuou desprezado pela Igreja estabelecida durante algum tempo, mas o
povo não o deixou morrer. Pela providência de Deus, a chamada para verem as
Escrituras como a única autoridade para os cristãos, começou a soar por toda
Alemanha e outras partes da Europa.
Este movimento, mais tarde
chamado de Reforma, foi um movimento de retorno à Bíblia. O lema tornou-se Sola
Scriptura e estes "rebeldes de
Deus" começaram a espalhar a mensagem do Evangelho mais uma vez pelo
mundo. Outros homens foram usados também para trazer esta mensagem do Deus
Soberano dando a Seu povo Suas Escrituras. Homens como Ulrich Zwinglio, João
Calvino, e João Knox sempre estiveram associados com este grande movimento de
Deus.
Com a expansão da Reforma
através da obra de Calvino e Knox, vemos o próximo grande impacto do Evangelho
no século XVII. É aqui que começamos a ver o berço do movimento batista.
História Inglesa
A Inglaterra era um país em
mudanças tanto política quanto religiosamente. Isto pode ser visto no rei
Henrique VIII (1.509-1.547) e em seu Decreto de Supremacia (1.534). Este
decreto separou a Igreja da Inglaterra do controle de Roma, todavia mesmo com
esta separação a Inglaterra continuou amplamente católica na prática e na
doutrina.
Então, o rei Eduardo VI
subiu ao trono em 1.547. Apesar de ser apenas um garoto, ele conduziu seu país
ao Protestantismo. Este movimento foi provavelmente devido ao fato de Eduardo
ter sido treinado por conselheiros protestantes. Com seu zelo de jovem, Eduardo
abriu a porta para a doutrina e a prática protestante fluir e crescer à medida
que os anos se passavam.
Todavia, a morte prematura
de Eduardo levou a uma radical e criminosa mudança na Inglaterra. Esta mudança
trouxe a lume uma guerra pelo trono que foi finalmente tomado por Mary Tudor em
1.553. Durante seu reino de cinco anos, ela ativamente restaurou o sistema
católico e começou a livrar sistematicamente a Inglaterra dos protestantes.
Esta atividade deu-lhe o renomado nome de "Maria Sanguinária".
Elizabeth Tudor sucedeu
Mary e governou de 1.559 a 1.603. Apesar de não ser uma pessoa realmente
religiosa, Elizabeth mantinha um catolicismo de aparências. Porém, movimentos
políticos levaram-na a aceitar o protestantismo. Esse movimento político,
ligado à reações do povo contra a antiga rainha Mary, guiaram a Inglaterra à
posição protestante mais uma vez. Elizabeth, não querendo perder nenhum tipo de
vantagem política, organizou um compromisso entre católicos e protestantes.
Este decreto foi chamado de "Acordo Elizabetano" e com ele surgiu o
pensamento de que as guerras religiosas da Inglaterra estavam
"resolvidas". Mas isso só durou por um curto período. Mesmo com esta
"paz", muitos na Inglaterra ainda clamavam por reformas maiores na
Igreja. Este clamor por mais reformas originou um grupo de pessoas que viria a
formar uma grande parte dos fundamentos batistas. Este grupo é chamado
puritano.
Os Puritanos
Tristemente, a maioria das
pessoas hoje não possui uma compreensão apropriada dos puritanos. Eles tendem a
ser interpretados como velhos fanáticos que só queriam estragar o prazer de
todo mundo. Contudo, a visão moderna dos puritanos está longe da verdade.
Talvez a contribuição seguinte sobre os
verdadeiros puritanos nos coloque no caminho para um entendimento correto:
A questão essencial em
entender os puritanos é que eles eram pregadores antes de qualquer outra coisa…
em seus esforços eles eram conduzidos por sua preocupação em reformar o mundo
através da Igreja, e todavia estes esforços foram frustrados pelos líderes da
Igreja. O que os manteve unidos, encorajou seus esforços, e deu-lhes a dinâmica
para persistirem foi a sua consciência de que eram chamados para pregar o
Evangelho.
Os puritanos queriam ver a
verdadeira reforma bíblica alcançar a Igreja. Estes antigos puritanos foram
conduzidos pelo Bispo Hooker e Thomas Cartwright e começaram a clamar por uma
Igreja "pura". Contudo, a rainha e a Igreja da Inglaterra não estavam
dispostas a discutir com estes puritanos e assim começaram a forçar a conformidade
religiosa pela lei. Assim encerrou-se um breve período de paz religiosa.
Os Separatistas
Esta exigência de
conformidade da parte da forças políticas e religiosas da Inglaterra originaram
um grupo conhecido como os "Separatistas". Os princípios por trás
deste movimento eram a liberdade da Igreja do domínio do Estado, doutrina pura
ao invés de doutrina diluída ou comprometida, e reforma geral da Igreja. Os
separatistas tomaram a Bíblia a sério e determinaram-se a conduzir suas vidas
por seus ensinos. Eles enfatizavam que a Igreja era formada somente por aqueles
que foram redimidos, não um corpo de oportunistas politicamente orientados.
Eles se recusavam a crer que a Bíblia ensinasse um governo eclesiástico
hierárquico (governo de cima para baixo), ao invés disso clamando por um
governo eclesiástico que tivesse alguma participação do povo (governo a partir
dos níveis mais rasteiros). Eles preferiam uma liturgia simples de adoração que
enfatizasse o Deus Santo. Eles sentiam que os documentos estatais e os auxílios
escritos da Igreja da Inglaterra levavam as pessoas a focalizarem sobre as
formas e não sobre o Deus Soberano; por isso estes tipos de "auxílio"
eram detestados.
Foi deste tipo de clamor
por pureza na Igreja, tanto na adoração como na prática diária, que a
"denominação batista", como é conhecida hoje, emergiu através do
movimento separatista inglês. A melhor evidência histórica confirma esta
origem, e nenhum grande erudito se levantou nesta metade de século para
desafiá-la." (McBeth) Conforme dissemos anteriormente,
os batistas emergiram com dois grupos separados. Voltemos nossa atenção agora
para o exame destes dois grupos diferentes:
Batistas
Antigos ou Gerais
Este grupo veio a ser
conhecido como "Batistas Gerais" porque acreditavam na expiação geral. Os Batistas Gerais também
tinham uma crença distinta em que os cristãos podiam enfrentar a possibilidade
de "cair da graça". Os dois principais fundadores do movimento dos
Batistas Gerais foram John Smyth e Thomas Helwys.
Acredita-se que a primeira
Igreja Batista Geral foi fundada por volta de 1.608 ou 1.609. Seu fundador foi
John Smyth (1.570-1.612) e está localizada na Holanda. A história de Smyth
começa na Inglaterra onde ele foi ordenado como sacerdote anglicano em 1.594.
Logo depois de sua ordenação, seu zelo levou-o à prisão por recusar-se a
conformar-se aos ensinos e práticas da Igreja da Inglaterra. Ele foi um orador
que era rápido em desafiar outros sobre suas crenças, mas era também tão rápido
para mudar suas próprias posições à medida que sua própria teologia pessoal
mudava. Smyth continuamente combateu a Igreja da Inglaterra até que começou a
ficar óbvio que ele não podia mais ficar em comunhão com esta igreja. Assim,
ele finalmente rompeu totalmente com ela e se tornou um "separatista".
Em 1.609, Smyth, junto com
um grupo na Holanda, veio a crer no batismo do crente (oposto ao batismo de
crianças que era a norma da época) e eles se uniram para formar a igreja
"batista". No início, Smyth concordava com a posição ortodoxa típica
da igreja; mas à medida que o tempo passava, como era tão típico, ele começou a
mudar suas posições. Primeiro, Smyth insistiu que a verdadeira adoração era do
coração e que qualquer forma de leitura a partir de um livro na adoração era
uma invenção do homem pecador. Oração, cântico e pregação tinham que ser
completamente espontâneos. Ele foi tão longe com esta mentalidade que não
permitia a leitura da Bíblia durante a adoração "uma vez que ele
considerava as traduções inglesas das Escrituras como algo menos do que a palavra
direta de Deus" (McBeth, p 35).
Segundo, Smyth introduziu
uma liderança eclesiástica de duas dobras, pastor e diácono. Isso estava em
contraste com a liderança reformada de três dobras composta por
presbítero-pastor, presbítero-leigo e diáconos.
Terceiro, com sua
recém-descoberta posição sobre batismo, uma preocupação completamente nova
surgiu para estes "batistas". Tendo sido batizados quando crianças,
eles todos perceberam que tinham que ser rebatizados. Uma vez que não havia
outro ministro para administrar o batismo, Smyth batizou-se a si mesmo e então
continuou a batizar seu rebanho. Uma observação interessante neste ponto que
deveria ser feita como fundamentação é que o modo do batismo usado era o da
aspersão, pois a imersão não se tornaria o padrão durante mais uma geração.
Antes de sua morte, como parece característica de Smyth, ele abandonou sua
visão batista e começou a tentar trazer seu rebanho para a igreja menonita.
Apesar de ter morrido antes que isso acontecesse, a maior parte da congregação
uniu-se à igreja menonita depois de sua morte.
Agora voltamos nossa
atenção para Thomas Helwys. Ele tinha um relacionamento meio agitado com Smyth,
mas depois que Smyth começou a se afastar da fé dos batistas gerais, Helwys
continuou com os primórdios batistas. Helwys levou seu pequeno grupo para a
Inglaterra em 1611 e esta foi considerada a primeira igreja batista em solo
inglês. Este grupo aferrado ao batismo do crente, rejeitou o calvinismo por uma
posição favorável ao livre-arbítrio (o que incluía o cair da graça), e permitiu
que cada igreja elegesse seus oficiais, tanto presbíteros como diáconos (ou
diaconisas). Por volta de 1.624, havia cinco igrejas batistas gerais conhecidas
e por volta de 1650 elas contavam pelo menos 47 (McBeth, p 39). Apesar de
alguns poderem ver o movimento batista moderno neste grupo, temos que entender
que as crenças deste grupo estão longe da herança reformada que modelou a fé
dos batistas modernos.
Batistas
Particulares
Diz-se freqüentemente que
os batistas na Inglaterra se dividiram sobre a doutrina da expiação, mas isso
não é reflexo de uma verdade histórica. Sim, é verdade que os dois grupos
mantinham diferentes visões sobre a expiação e doutrina em geral, mas eles não
se dividiram. Antes, eles emergiram como dois grupos separados. Como foi com os
batistas gerais, os batistas particulares surgiram do movimento separatista.
Este grupo emergiu nos anos 1.630. Este grupo foi influenciado pelo grande
reformador João Calvino e sustentava fortemente a expiação "particular". Acredita-se que a
primeira igreja tenha sido fundada por volta de 1.633 ou 1.638, de acordo com
alguns. Independentemente desta datação, porém, está claro que por volta de
1.644 os batistas particulares contavam pelo menos sete igrejas. Um ponto
impressionante sobre este pequeno e muito jovem grupo é que em 1.644 estas
igrejas atuaram juntas para redigir uma confissão de fé chamada de Primeira
Confissão Batista de Londres. Esta confissão precedeu a amplamente conhecida
Confissão de Fé de Westminster por dois anos. Conforme veremos, as atuais
igrejas batistas podem recuar traçando uma linha até estes primeiros batistas.
Apesar da história batista
típica ser atribuída mais ao movimento dos batistas gerais, é, na verdade, aos
batistas particulares que a maioria dos batistas modernos devem sua doutrina e
práticas. Como um historiador nos recorda, os batistas gerais sempre
representaram uma pequena parte da vida batista na Inglaterra, e uma parte
menor ainda na América. A influência deles sobre as principais correntes da
vida batista em ambos os países parece ter sido muito pequena (McBeth, p 40).
A história do movimento
batista particular começa com Henry Jacob (1.563-1.624). Apesar de Jacob nunca
ter se tornado um batista, ele foi uma influência básica para o que seriam os
batistas particulares. Poderíamos chamar Jacob um separatista moderado. Jacob
não estava disposto a chamar a Igreja da Inglaterra de anticristo, portanto ele
trabalhou continuamente para reformá-la. Em 1.603, Jacob assinou um documento
que clamava por reforma na Igreja da Inglaterra. Este documento deveria ser
vetado pelo rei Tiago I. Apesar de Jacob não pedir separação, ele escreveu um
tratado intitulado "Razões" tirado da Palavra de Deus e dos melhores
testemunhos humanos para provar a necessidade de reformar as igrejas na
Inglaterra. Com a publicação deste livro, Jacob foi lançado na prisão por um
curto período. Quando de sua libertação, ele foi para o exílio na Holanda como
fizera a maioria dos separatistas. Apesar de estar relutante em cair
radicalmente sobre a Igreja da Inglaterra, ele veio a fazer uma distinção entre
as verdadeiras e falsas igrejas da Igreja da Inglaterra. Esta nova abordagem
fê-lo clamar por liberdade para formar diferentes tipos de igrejas com diversos
tipos de adoração.
Em 1.616, Jacob pôde
retornar à Inglaterra e formou a Igreja JLJ, como é conhecida hoje (pelas
iniciais de seus três primeiros pastores: Henry Jacob, John Lathrop, e Henry
Jessey). Era essa igreja que daria mais tarde início aos batistas particulares.
Esta igreja tinha vários debates surgindo em seu meio sobre batismo, debates
que levaram a diferentes rompimentos na Igreja JLJ. Um rompimento aconteceu em
1.633 quando dezesseis pessoas pediram permissão para saírem da Igreja JLJ para
formar uma igreja separada. As razões para esta divisão eram duplas. A primeira
estava além da necessidade. A Igreja JLJ estava se tornando grande demais e
corria perigo de ser "descoberta" (uma vez que era ilegal ficar fora
da Igreja da Inglaterra). A segunda razão citada era a de que havia muita
conformidade com a Igreja da Inglaterra. Em 1638, um outro rompimento aconteceu
quando seis pessoas deixaram a igreja JLJ por causa da questão do batismo de
crentes, que eles mantinham fortemente. Assim, a primeira Igreja Batista Particular
pode ser vinculada a uma ou ambas as igrejas.
Panorama das Origens Batistas
Como tentamos esclarecer, a
história destaca que as origens da vida batista surgiram do movimento
separatista dos anos 1.600 na Inglaterra. Todavia, esta não é a única visão que
tem sido apresentada a respeito das origens dos batistas. Por amor à clareza
histórica, precisamos explorar brevemente estas outras posições que tem sido
declaradas a respeito da origem do movimento batista.
A Influência Anabatista
A maioria dos batistas
engana-se ao pensar que vieram dos anabatistas só porque a palavra
"batista" é encontrada no nome deles. Mas precisamos usar de muito
cuidado aqui. Temos que explorar quem foram realmente os anabatistas e fazer
uma pergunta de suma importância: São eles realmente representantes das crenças
batistas?
Quem são estas pessoas
chamadas "anabatistas"? Este grupo se refere a uma comunidade de
rebeldes durante o período da Reforma; eles eram considerados a ala radical da
Reforma. Mesmo dentro deste grupo havia várias visões e facções. Duas
principais facções podem ser identificadas: os "anabatistas
revolucionários" e os "anabatistas evangélicos." (NDT) Nós realmente não
queremos gastar muito tempo sobre o grupo revolucionário, pois eles
dificilmente refletem uma abordagem bíblica do cristianismo. Eles, na verdade,
tomaram a forma de uma seita, sustentando uma visão experimental extremamente
mística e crendo que seus líderes eram profetas. Eles estavam também prontos a
usar a violência para abrir caminho.
Por outro lado, os
anabatistas "evangélicos" foram um movimento diferente. E é deste
grupo que muitos dizem que o movimento batista nasceu. Assim, precisamos tomar
algum tempo para examiná-los. Este grupo, antes de tudo, rejeitava a visão
ortodoxa cristã do pecado. Ao invés de sustentar que o pecado é uma cadeia
tanto da natureza como das ações da humanidade, eles sustentavam que o pecado
era "a perda da capacidade ou uma doença séria." (NDT) Os anabatistas, seguindo
a visão de justificação de Roma, sustentavam que Deus nos justifica e então
aceita com base em nossa justiça. Eles também acreditavam que Cristo não
recebeu Seu corpo de Maria, mas sustentavam uma origem celestial para a Sua
carne. Em tratando-se do mundo, os anabatistas acreditavam que devíamos nos
separar totalmente do mundo (apesar de eles terem mergulhado num evangelismo
zeloso na ocasião). Os anabatistas rejeitavam o batismo de crianças e
sustentavam o batismo do crente, mas seu modo era em grande parte aspersão, não
o derramar água ou o imergir. Sua visão de interpretação da Escritura era de
estrita imitação, o que levou a grandes movimentos de legalismo.
Quando olhamos para os
anabatistas temos que concordar que houve algumas similaridades com os antigos
batistas gerais, mas de um modo geral estas semelhanças são leves e nem sempre
relacionais. No final, temos que dizer que este grupo de Cristãos não reflete o
ensino histórico dos batistas. A maior parte da história batista demonstra que
os batistas sustentaram uma forte posição sobre o pecado, tanto em nossa
natureza como em nossas ações, não apenas como uma simples doença. Os batistas
também têm sustentado a crença no nascimento virginal e vêem que isso aponta
para a doutrina do Deus-Homem, não somente como um ilusão celestial. Da mesma forma,
os batistas têm sustentado fortemente a recuperação da doutrina da justificação
da Reforma que é baseada na justiça de Cristo somente e não na nossa justiça
porque não temos nenhuma. E finalmente, os batistas tem sempre visto que as
Escrituras devem ser estudadas e aplicadas à vida cotidiana através do poder do
Espírito Santo e não seguidas em cega imitação ou por um salto de fé. Portanto,
devemos claramente rejeitar, como o faz a história, que as origens dos batistas
fluem dos anabatistas.
Continuação ou
Sucessão do Ensino Batista
A próxima visão da origem
batista não é fortemente defendida hoje mas ainda encontra expressão em alguns
círculos batistas. Esta visão é conhecida como a Continuação ou visão
Sucessivista. Ela declara que a igreja batista pode ser traçada através dos
tempos numa sucessão ininterrupta de igrejas batistas organizadas (apesar de
não terem o nome de batistas) até Jesus Cristo e João Batista. Temos que ter
cuidado com o modo como refutamos esta posição, pois não queremos de modo algum
dizer que nossa herança batista não veio de Cristo e das verdades estabelecidas
nas Escrituras Sagradas. Mas temos que falar contra a posição que sustenta que
nossa história é uma trilha de verdadeiras igrejas batistas que pode ser
traçada desde o Novo Testamento até os dias atuais.
Esta visão sucessivista tem
sido apresentada num livrete chamado "A Trilha de Sangue" por JM
Carroll. Este livrete tenta mostrar que "de acordo com a História, os
batistas têm uma linha ininterrupta de igrejas desde Cristo." Este livro e
outros como ele têm enfatizado que João Batista representa o início da
denominação e que Jesus formou-a e prometeu que ela nunca fracassaria. Eles
fizeram declarações arrogantes como "a verdadeira igreja é batista" e
"todos as comunidades cristãs durante os três primeiros séculos eram da
denominação batista." Estes tipos de visão são mais baseados em fontes
inadequadas e numa mentalidade polêmica do que numa base histórica. Eles fazem
grandes suposições onde faltam evidências. Esta posição inflexível surgiu em um
tempo (anos 1.800) de intensa competição denominacional, quando as pessoas
criam que a fé era algo que vinha de dentro deles e não um maravilhoso dom da
graça de Deus. Muitos pensavam que este tipo de visão traria de volta a segurança
que havia sido perdida com a emergência da sociedade moderna. (McBeth pgs.
58-61)
Precisamos também nos
recordar que quase todos os batistas primitivos rejeitaram a visão
sucessivista. John Smyth foi um destes, como pode ser visto em seus escritos: "Eu
nego toda sucessão exceto na verdade" e "Não há sucessão na igreja
exterior, mas que toda sucessão é do céu." (McBeth p 60). Thomas Helwys,
falando contra a mentalidade sucessionista, disse: "Nenhum homem pode
jamais prová-la… lance isso fora, visto que não há garantia na palavra de Deus
para assegurar-lhe isso, que ele ou eles foram os primeiros." (McBeth pp
60-61). Também John Spilsbury, um pastor batista particular, declarou:
"Não há sucessão sob o Novo Testamento, mas o que é espiritualmente pela
fé e pela Palavra de Deus." (McBeth p 61) Esta última citação nos dá um
modo apropriado de olhar para nós mesmos como batistas. Apesar de não termos
sempre existido como denominação batista, é sobre a verdade eterna de Deus que
fomos formados! Mais uma vez, somos recordados disso na Confissão Batista de
Fé, cap. 26:3: "As igrejas mais puras sob o céu são sujeitas à mistura e
ao erro; e algumas têm se degenerado de tal maneira que deixaram de ser igrejas
de Cristo, mas sinagogas de Satanás; não obstante, Cristo sempre tem tido, e
sempre há de ter um reino neste mundo, até o fim, daqueles que crêem nele, e
fazem profissão do seu nome." Assim, o que devemos ver é que a denominação
batista começou a partir da Reforma, especificamente dos separatistas da Inglaterra.
Com isso em mente, nós como um grupo protestante devemos refletir nossos
antecedentes reformados e manter, como nossos pais fizeram, as doutrinas da
graça, justificação pela fé somente, autoridade da Escritura e sacerdócio de
todos os crentes.
O Desenvolvimento da História Batista
Voltemos agora a ver como
os batistas floresceram na Inglaterra e então como eles moveram-se para os
Estados Unidos. Temos que prestar especial atenção ao movimento para o novo
mundo, pois é aqui que nós batistas americanos descobrimos nossos pais batistas
diretos.
Batistas na
Inglaterra
Nós agora vemos que em
meados dos anos 1.600, ambos os grupos batistas estavam funcionando na
Inglaterra. Mas o que, exatamente, aconteceu a estes dois grupos diferentes; o
que aconteceu às suas igrejas? Os batistas gerais adentraram os anos 1.600 com
um movimento crescente, mas à medida em que os anos 1.600 se encerravam e os
1.700 começavam, este grupo estava confuso com problemas doutrinários. A
deidade de Cristo começou a ser questionada. Os batistas gerais estavam
morrendo rapidamente com esta mentalidade anti-bíblica. Todavia, em 1.763, um
convertido metodista chamado Dan Taylor reavivou os batistas gerais por um
tempo, chamando-os de volta a uma abordagem bíblica. Mas uma vez mais, esta
"Nova Conexão" (1.770) somente durou por um tempo. A razão pela qual
esta visão foi perdida rapidamente foi provavelmente devida ao fato de que os
batistas gerais tinham alistado em suas patentes pastores e líderes pouco
instruídos. Só levou uma geração mais para que os batistas gerais saíssem da
história.
Os batistas particulares
tiveram uma história diferente. Os anos 1.600 trouxeram grande crescimento para
eles mesmo em meio à perseguição religiosa grassando na Inglaterra. Em 1644, os
batistas particulares publicaram a Primeira Confissão Batista. Esta confissão
era calvinista em seu caráter e rejeitava todas as sugestões de que eles fossem
anabatistas. Apesar desta Confissão não ser exaustiva, ela foi um forte
documento que ajudou a unir os primitivos batistas particulares.
Então, em 1.677, uma
segunda confissão foi desenvolvida refletindo a Confissão de Westminster
(1.647) e a Declaração de Savoy (1.658). Em sua maior parte, esta confissão
seguiu a Confissão de Westminster mas em sua posição sobre o governo da igreja
(o assunto crítico aqui era o poder da igreja) a Confissão Batista segue a
Declaração de Savoy. Esta nova Confissão
Batista saiu para lidar com assuntos como que tipo de poder as associações
representativas nas igrejas tinham sobre as igrejas locais. Também, lidava com
batismo estabelecendo uma posição sobre o batismo de crentes ao invés de manter
o batismo infantil. Temos que manter em mente que não se chegou a esta
distinção seguindo os "anabatistas", mas ela emergiu do intenso
desejo de refletir a Escritura conforme ela nos foi dada.
Os batistas particulares na
Inglaterra tiveram seu declínio também, mas o deles era um movimento para a
direita e não para a esquerda. O começo do hiper-calvinismo.
Foi em 1.707 que a
Associação Batista Filadélfia foi fundada. Esta forte fraternidade batista
particular teve um efeito duradouro sobre os batistas na América. Em 1.742,
esta associação adotou a Confissão Batista de Londres de 1.689 como sua
confissão de fundação, e deu-lhe um novo nome: A Confissão de Fé de Filadélfia.
Estes batistas foram ágeis em colocar sua fé em ação, e em 1.770 eles fundaram
uma Faculdade e começaram a enviar missionários regularmente por toda a
América. Deste tempo em diante, os batistas particulares encobriram os fracassados
batistas gerais. Mas mesmo com sua forte posição histórica e doutrinária, os
batistas particulares também começaram a perder sua pureza doutrinária no Novo
Mundo.
O Declínio dos
Batistas Particulares
A questão com a qual vamos
encerrar este estudo é: por que os batistas perderam sua herança reformada?
Como essa perda de doutrina aconteceu?
Samuel E. Waldron, em seu
livro Raízes Batistas na América, nos dá várias razões para
este grande declínio em nossa herança. É muito importante que entendamos estes
fatores, pois, como é típico, nós batistas modernos estamos continuando nos
mesmos erros de anos passados. Comecemos a explorar a avaliação de Waldron
sobre este grande declínio.
Primeiro, Waldron chama a
nossa atenção para o ethos democrático americano. Esta foi a mentalidade
americana de absoluta liberdade que surgiu com a Revolução Americana. A América
tinha uma forte mentalidade independente e esta cosmovisão começou a
infiltrar-se na Igreja. Como qualquer cosmovisão independente e auto-centrada, o
Deus Soberano foi colocado na prateleira, por assim dizer, por um Deus que não
impedirá nossa independência. Este tipo de ethos foi o que levou ao começo do
declínio das crenças dos batistas particulares.
Em segundo lugar, nós vemos
outra causa para o declínio no "reavivalismo" dos batistas
particulares que varreu o nosso país nos anos 1.700 e 1.800. Temos que evitar
compreender mal este ponto; o problema não estava com o reavivamento, mas com
as respostas ao reavivamento. Foram as duas respostas extremistas que causaram
esta grande tragédia. Um extremismo para este reavivalismo começou com a idéia
de que tem que haver ordem na igreja. Isso levou a um legalismo linha-dura que
causou morte lenta naquelas igrejas que tomaram esta direção, e como os batistas
particulares caíram nesta posição, começaram a declinar. O outro extremo era o
da experiência segundo o coração do indivíduo. Isto levou a uma posição
anti-tradicional e abriu as portas para o arminianismo. Este novo método de
igreja era apelativo a muitos batistas, pois eles objetivavam sua
sobrevivência; mas ao invés de sobrevivência isso produziu um vírus na igreja
que atacou exatamente o cerne da herança reformada batista.
Em terceiro lugar, vemos o
"sincretismo" como a próxima queda dos batistas particulares. O
sincretismo está unindo duas posições em uma. Esta adaptação de teologia nos
estágios iniciais de nosso país foi visto por alguns como uma necessidade de
forma que o evangelho pudesse seguir sem impedimento. Mas este sincretismo
levou a um desvio teológico que condenou a herança batista a uma versão fraca e
diluída de suas raízes calvinistas. Como foi com os filhos de Israel no Velho
Testamento, assim os batistas na América permitiram que o lume da cultura
contemporânea os cegasse para as verdades que Deus revelou.
Em quarto lugar, quando há
um movimento para diluir a teologia, há uma transferência para o outro extremo.
Esta oscilação foi o "hiper-calvinismo". Muitos hoje precisam ser
desafiados neste ponto, pois o que eles chamam calvinismo não é o verdadeiro
calvinismo bíblico, mas a variação "hiper". Porque alguém não gosta
de uma posição, ele não tem o direito de defini-la em sua formas extremistas.
Todavia, é preciso dizer que o "hiper-calvinismo" não tem nada a ver
com o verdadeiro calvinismo e temos que ser ágeis em dizer também que isso não
tem parte no cristianismo. "Hiper-calvinismo" é uma negação da idéia
de que a chamada do evangelho se destina àqueles que não são eleitos... isso é
a negação da idéia de que a fé é o dever de cada um que ouve o evangelho
(Waldron p 22). Como dissemos antes, quando uma posição extremista é tomada,
uma morte lenta certamente se seguirá. Quando várias igrejas batistas
particulares tornaram-se "hiper-calvinistas", seu colapso havia
chegado. E com o seu colapso foram-se também aquelas igrejas que tinham sido
rotuladas como "hiper-calvinistas", pois parece que quando o rótulo é
colocado sobre alguém que lembra posição tão desastrosa, ele também é
radicalmente afetado.
Em quinto lugar, o declínio
foi também resultante do "liberalismo" (= principalmente o
econômico). Esta nova cosmovisão avassalou a América como uma tempestade e foi
aceita de uma forma ou de outra. Quando este grupo começou a enfatizar o
individualismo sobre tudo o mais, a forte visão sobre a soberania de Deus e os
absolutos das Escrituras começou a ruir na igreja. Muitas igrejas começaram a
aceitar esta posição depois da Guerra Civil e a influência dos batistas
particulares estava em declínio como estava toda a fé ortodoxa.
Por último, vemos que o
"Movimento Fundamentalista" foi outro grande fator no declínio dos
batistas particulares na América. Os fundamentalistas, respondendo ao
liberalismo, produziram um inesperado extremo oposto: o do legalismo. Esta nova
mentalidade cristã clamava por uma visão geral da doutrina. Eles sustentavam
que as verdades grandemente reclamadas pela Reforma não eram importantes, pois
eles criam que a doutrina leva o indivíduo a descansar sobre o conhecimento
somente, sem abrir a Bíblia. Eles sustentavam uma posição não-credal e
enfatizavam as emoções mais do que as doutrinas. Isso levou ao que pode ser
chamado ensurdecimento do conhecimento bíblico e doutrinário e eventualmente
desembocou numa salvação de "fácil aceitação". Esta "nova"
visão de salvação enfatizava a fé centrada no homem ao invés da fé centrada em
Deus. Como acontece com qualquer posição antropocêntrica, a doutrina se perdeu.
E quando a doutrina se perdeu, perdeu-se a nossa grande herança batista.
Uma Chamada para a Reforma
Agora que vimos os fundamentos
históricos da igreja batista e que eles podem ser alinhados de volta aos
batistas particulares, precisamos reclamar nossa herança. Quanto mais ficarmos
longe da doutrina reformada tanto mais veremos um declínio no conhecimento
bíblico e espiritualidade. Temos que ver que a herança batista é fortemente
enraizada na Reforma que resgatou a Escritura de uma igreja pragmática.
Conforme olhamos à nossa volta hoje, observamos que a maioria das igrejas
batistas (e neste assunto a igreja evangélica como um todo) estão sendo
devoradas pelo pragmatismo. Se quisermos ver uma
Reforma hoje, temos que voltar à nossa herança reformada. A teologia batista
tem produzido uma das mais fortes influências no mundo desde 1.700. Mas não
devemos permitir que uma versão diluída da teologia batista interrompa nossa
influência contínua. Se vamos nos chamar batistas, temos que seguir nossos
antecessores em sua busca pela pureza bíblica para com as doutrinas ortodoxas
cristãs. Somos um povo de doutrina, um povo que tem vindo da Reforma para
chamar o mundo a seguir o Soberano Deus que enviou Seu Filho para morrer na
cruz por todo aquele que viria a crer! Comecemos esta Reforma hoje!
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