A Besta do Apocalipse
Devido ao seu simbolismo, o livro mais
difícil do novo testamento é, sem dúvida, o Apocalipse de João. Muitos são os
personagens que desfilam ao longo dessa obra, porém nenhum é tão conhecido e
mencionado quanto à famosa Besta. São dois os capítulos-chaves para se decifrar
o mistério que essa figura encerra: o 13 e o 17.
Para os pesquisadores, existe uma
única resposta: a besta do apocalipse é o Império Romano. A primeira indicação
que se apresenta é a de que saiu do mar (13,1). Israel foi sempre um povo de
terra firme e que sempre temeu o mar aberto, que seria a representação das
esferas do inferno, hostis a Deus.
O mar representava para os judeus,
mais concretamente, o Mediterrâneo, em cuja margem oposta encontrava-se seu
pior inimigo: o Império Romano. Referindo-se a sua visão. João diz que a besta
teria em suas cabeças títulos blasfematório.
Este simbolismo encontra-se em
perfeito acordo com o costume dos imperadores de se atribuir títulos próprios
de Deus, adorado, salvador. Entre as particularidades da Besta, conta-nos que
uma de suas cabeças estava como que ferida de morte, mas essa sua ferida foi
curada (13,3).
Mais adiante, nos revela o segredo de
que as sete cabeças da Besta são imperadores (17,9); então, temos de interpretar
que se trata de um soberano que se acreditava morto.
Tal fato se refere a um relato dos
historiadores da época: quando Nero se suicidou, muitos não queriam crer que o
imperador havia morrido e se espalhou o boato de que ele havia ido a um país
estrangeiro para formar um exército, voltar e conquistar o império. Assim
criou-se a lenda de seu retorno após a morte.
Em 13.18 termina a descrição da
terrível besta, que se persegue e mata os cristãos, e de que uma segunda besta,
que faz a estátua da primeira para que todos a adorem. Depois de haver
apresentado essas figuras simbólicas, João mostra uma espécie de enigma que tem
de ser decifrado, dizendo o seguinte:
"Eis aqui a sabedoria! Quem tiver
inteligência, calcule o número da Besta, porque é um número de um homem, e esse
número é 666" (13,18).
Quando escreveu seu livro, João havia
sido preso pelos romanos e sua vida corria perigo; então, decide alertar os
cristãos de uma maneira velada, evitando que a polícia imperial pudesse tomar
medidas de represálias contra ele.
Muito provavelmente, trata-se aqui do
imperador Nero, pois ao escrever seu nome em hebraico, o resultado é o
seguinte: N(=50) +R(=200) +W(=6) +N(=50) +Q(=100) +S(=60) +R(=200) =666. Com as
letras indicadas (NRWNQSR) escreve-se o nome e o título do imperador: Nero
César. Além disso, no capítulo 17 o autor volta a dar outras indicações que
lançam dúvidas.
Diz que os setes cabeças da Besta são
sete montanhas (v.9). Sabe-se que a cidade de Roma é famosa por suas sete
colinas; portanto a identificação da besta com o Império é bastante clara. O
texto acrescenta: "São também sete reis: cinco já caíram; um subsiste, o
outro ainda não veio; e quando vier, deve permanecer pouco tempo. Quanto à fera
que era e já não é, ela mesma é um oitavo, todavia é um dos sete e caminha para
a perdição".
Deste modo se as sete cabeças da besta
são sete reis, basta verificar quem foram os primeiros imperadores e ter-se-á a
solução do problema. Em outra parte do livro, o autor ver surgir em sua visão
uma mistura de leopardo, urso e leão (13,2). Quem conhece os livros do Antigo
Testamento reconhece imediatamente que a referida figura seria uma síntese das
quatro bestas que o profeta Daniel viu em uma aparição, das quais as três
primeiras se assemelham aos animais mais descritos (Daniel 7,1-8).
Essas quatro figuras somavam sete
cabeças e dez chifres. Por isso, a do Apocalipse também apresenta essas
características. João descreve seu Apocalipse em um contexto muito especial - o
imperialismo romano, sistema opressor imposto pelos que tinham poder político,
militar e econômico àquela época. Começava um culto ao imperador, ou seja, ao Estado,
como Senhor e Deus.

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